Adilson Batista Borges Filho
Ao fim desse breve artigo será possível ter uma breve dimensão da relevância do Antigo Testamento para o entendimento do Novo Testamento. Será possível analisar que a Bíblia não possui uma dicotomia, antes, ela é orgânica, de tal modo que as revelações veteotestamentárias são como sombras que apontam para fatos que se cumpriram em Cristo.
Aprenderemos ainda que a forma literária do Antigo Testamento possui teologia que devem ser extraídas das narrativas, poesias, crônicas etc. Por fim aprenderemos que aprouve a Deus manter o Antigo Testamento, sendo Ele onisciente e onipresente devemos esmerarmos por entender a Sua Palavra Escrita.
1. ESTRUTURA DOS LIVROS QUE COMPÕE O ANTIGO TESTAMENTO.
O Antigo Testamento foi dividido em 39 livros, e foi separado em blocos, os primeiros cinco livros, ficou conhecido como os livros da lei, o “Pentateuco”, todos eles foram escritos por Moisés e nele descreve o período de formação do povo de Deus, bem como a sua estadia no Egito, peregrinação no deserto e a formação da lei mosaica.
Os “Livros Históricos”, no segundo bloco, contém doze livros que vão de Josué à Ester, neles são descritos ações e eventos dos hebreus que ocorreram após a chegada à região da palestina. Há nessa parte grande ênfase no desenvolvimento histórico e político de Israel. Todos esses doze livros são anônimos.
O bloco dos “Livros Poéticos” vai de Jó até Cantares. Possuem ênfase nos ensinos práticos, mais até do que filosóficos. A apresentação de soluções juntamente com punições Divina visava um aperfeiçoamento de caráter e de vida em santidade. Com uma literatura rica e com diversos estilos literários, o bloco dos poéticos tem uma ortopraxia muito citada no Novo Testamento.
Os “Profetas Maiores”, assim conhecidos os livros que vão de Isaías a Daniel, não são mais importantes do que os demais profetas, levam esse nome devido a sua extensão.
Com literaturas bastante peculiares, os profetas falavam sobre o Messias, juízo, advertências de Deus e perigos que as nações enfrentariam. Sobre esses profetas repousou a responsabilidade de conduzir os olhos do povo de Deus para o futuro, para o Messias. Os profetas deveriam falar o que Deus queria, dar mensagens concernente às coisas futuras e ensinar as sagradas escrituras (Is 6:8-10). Os “Profetas Menores” encerram o Antigo Testamento. Os profetas menores vão desde o livro de Oséias até Malaquias.
“Os hebreus chamavam-nos de: O Livro dos Doze. Foram provavelmente agrupados dessa maneira por Esdras e a “Grande Sinagoga”, mais ou menos em 425 a.C., talvez a fim de acomodá-los em um rolo. O grupo todo é mais curto que Isaías, Jeremias ou Ezequiel.”
2. ANTIGO TESTAMENTO E AS LÍNGUAS SEMIÍTICAS.
Tomando por referencia as datações dos livros do Antigo Testamento, feitas por Arnold e Beyer, concluímos que o Antigo Testamento foi escrito em um período de 940 anos, por isso, facilmente detectamos diferenças no estilo literário entre os livros, pois a língua, a escrita e a mentalidade das pessoas transformam com o passar dos anos.
O Antigo Testamento foi escrito originalmente na língua hebraica, entretanto, há porções que foram escritas na língua Aramaica, são elas “Gn 31.47b; Ed 4.8 – 6.18; 7.12-26; Jr 10.11b; Dt 2.4b-7.28”.
A língua hebraica juntamente com o aramaico e árabe, encaixam no bloco das línguas semíticas. Há grande possibilidade de que esse estilo gráfico e vocálico das línguas semíticas tenha tido origem na família de Sem, filho de Noé, por isso, “semítica”.
Os hebreus sempre procuraram aprender outros dialetos. A virtude linguística dos hebreus foi desenvolvida principalmente por meio dos exílios de guerra. Por diversos momentos foram dominados e subjugados. Era de comum prática que a nação dominadora miscigenasse a nação escravizada, com essa mistura o sincretismo religioso, a perda cultural gradativa e a acomodação faziam com que essas nações perdessem força. Por todo o Antigo Testamento vemos Deus exortando sua nação para que eles não viessem a misturar com nações pagãs, os próprios judeus entenderam isso (Gn 24:1-4).
3. CUIDADO DE DEUS NA PRESERVAÇÃO DA SUA PALAVRA ESCRITA.
A Bíblia, como hoje a conhecemos, é dividida em duas partes, Antigo e Novo Testamento, isso se deu por um tempo conhecido como “Período Inter-Bíblico” ou “400 Anos de Silêncio” que foi o intervalo de tempo entre Malaquias e o Evangelho de Marcos (aproximadamente).
Nesses séculos, Deus não registrou nenhum livro e houve silêncio profético, esse tempo marcou a divisão bíblica entre Antigo e Novo testamento, mas essa divisão se deu por interpretação de historiadores e não necessariamente por vontade de Deus.
Ao longo dos séculos, nos quais o A.T foi escrito, não faltou oportunidades para que a Bíblia desaparecesse, fatos como: guerras, cativeiro babilônico e Assírio, 400 anos de silêncio e destruição do templo pelo imperador Tito, evidenciam o cuidado de Deus pela Sua Palavra. De fato, o Antigo Testamento foi preservado por Deus, pois sem Ele, não haveria como entender claramente o Novo Testamento.
4. A HARMONIA E COERÊNCIA DO CÂNON BÍBLICO.
Um dos princípios didáticos mais fascinantes da Bíblia é a didática de Deus quanto à harmonia das Sagradas Escrituras. Embora seja um livro que demorou em torno de 1.500 anos para ser compilado, e possuir 40 “autores” (aproximadamente) usados por Deus para escrevê-la, a bíblia é um livro extremamente harmônico.
Alguns eruditos veem o A.T como uma sequência de histórias aleatórias e desconexas, até mesmo com menos importante que o N.T, de fato não é por esse prisma que devemos analisar a Bíblia. É imprescindível considerar a onisciência e onipotência de Deus, de modo que, como cristãos acreditamos que os fatos e ensinamentos ocorreram no Antigo Testamento como um anúncio, uma sombra de algo que viria.
O Antigo Testamento é tão relevante que o Evangelho de Mateus, em seu primeiro capítulo, já demonstra uma preocupação de traçar a genealogia de Jesus desde o patriarca Abraão com o fim de alegar autoridade, visto que o Evangelho de Mateus foi escrito para um público judeu.
Notemos ainda que João Batista, mesmo que no período neotestamentário, era um profeta messiânico, pois pregava a respeito do Cristo que haveria de vir, assim como o profeta Isaías (Is 9:6-7). Outra evidência é Jesus e Paulo que citaram diversas vezes o Antigo Testamento. A Bíblia não é dicotômica, nela há sincronismo e coerência.
O A.T é um desenvolvimento (na história) de revelações, que de forma crescente vão apontando ao Novo Testamento, por assim ser, essa revelação é progressiva, muito embora, nela haja bastante informação teológica. Talvez a grande confusão que se faça quanto à importância do Antigo Testamento, se dê pela falta de compreensão do estilo literário. Diferente das cartas paulinas, o Antigo Testamento apresenta teologia em forma de histórias, narrativas, crônicas etc. Por toda a Bíblia percebemos os tipos e antítipos que autentificam a autoridade e harmonia dos testamentos, vejamos alguns deles na página seguinte.
TIPOS: ANTIGO TESTAMENTO ANTÍTIPOS: NOVO TESTAMENTO
CORDEIRO JESUS
CIRCUNCIZÃO BATISMO
SERPENTE DE BRONZE JESUS CRISTO NA CRUZ
QUERUBINS NO JARDIM DO ÉDEM QUERUBINS NO VÉU QUE SE RASGOU
ABRAÃO E O SACRIFÍCIO DE IS DEUS E O SACRIFÍCO DE JESUS
CONCLUSÃO
A riqueza do Antigo Testamento se encontra na literatura, teologia implícita como “tipos”, na sua relação orgânica com os demais escritos do Novo Testamento, na revelação crescente que culmina em Cristo e também no fato de que o próprio Deus Filho atribui autoridade ao Antigo Testamento ao citá-lo constantemente.
O reconhecimento dos valores veteotestamentários e a correta aplicação dos seus princípios, incentiva-nos, pela ação iluminadora do Espírito Santo, a sermos cristãos fiéis que entendem que “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” (II Tm 3:16).

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