Texto Produzido por: Adilson Borges
Filemon, o livro desprezado por muitos. No 4° séc. alguns estudiosos disseram que essa carta não era canônica, ou seja, ela era falsa, outros estudiosos a consideraram como uma carta trivial, sem importância por ser informal e pessoal e portanto não apta para enquadrar no canon bíblico.
Esse pequeno e desprezado livro passa por vezes despercebido aos nossos olhos, uma carta que cabe em apenas uma página da Bíblia. Talvez, ao comprarmos nossa Bíblia nova, esta seja a ultima página a ser descolada das demais.
De fato, olhando por alto, muitos detalhes escapam, mas com o olhar do Espírito Santo, nessa mesma carta surgem verdades sobre o amor, bondade, e perdão. Filemom é uma história bela e nela há muitas verdades espirituais também. É bom sabermos que Filemom foi escrito na prisão de Roma ou Éfeso, no ano 60 d.C, pelo apóstolo Paulo, que já estava velho (vs.9). O livro nos conta que havia um senhor chamado Filemom, um colaborador do Evangelho e amado por Paulo, a história nos conta que Filemom possuía um escravo (hábito comum da época) chamado Onésimo, que certa vez fugiu de casa. Pensando nisso (vs.18-19), alguns estudiosos acreditam que Onésimo não somente fugiu como também roubou dinheiro ou danificou alguma propriedade de Filemom.
Era comum a fuga de escravos, normalmente fugiam para a grande cidade de Éfeso, local difícil de ser encontrado devido a quantidade de pessoas, ou, para Roma, cidade que recebia muitos fugitivos e forasteiros. Seja qual for a cidade, é fato que Onésimo foi capturado e na prisão ele conheceu o velho apóstolo Paulo, e com a amizade formada pelos dois, Paulo escreve essa carta para Filemom, pedindo para que ele aceite novamente Onésimo.
Nessa carta, Paulo foi a ponte da amizade entre o escravo e seu senhor. Algumas atitudes de Paulo nos chama a atenção nessa carta, essas mesmas atitudes deveriam ser costumeiras para nós. Avaliando as atitudes de Paulo podemos nos perguntar:
COMO DEVO TRATAR O PRÓXIMO?
1) COM AMOR (Vs.11)
É fácil apontar erros, todos nós fazemos isso. Se não for por Deus, nós desistimos das pessoas e as pessoas desistem de nós. Com os ensinos de Jesus descobrimos que é preciso amar, e isso, independe do passado bom ou hostil. Paulo reafirma a sabedoria do amor na epístola que lemos. Amar o jovem Timóteo era fácil, menino bom, crente, piedoso, mas e quanto a Onésimo, um escravo delinquente e fujão. Como olhar para esse cidadão e enxergar potencial? É preciso abster da discriminação, e isso só se pode ser feito com o olhar de amor, que é diferente de piedade, no sentido de sentir pena.
No versículo que lemos, Paulo faz uma brincadeira com as palavras. O nome Onésimo significa útil, e nesse caso Onésimo não fazia valer o seu nome, mas, ao ler esse versículo (11) pode-se perceber que Paulo havia pregado o Evangelho para Onésimo. Paulo não selecionava momentos ou pessoas para pregar o Evangelho, Jesus também nunca faria isso, Cristo e Paulo jamais pregaram o evangelho “custo-benefício”, vou pregar para um amigo meu ou para um empresário porque me é conveniente, antes de dinheiro e amizade, eu e você necessitamos desesperadamente de Deus. Paulo vivia o que pregava e o Evangelho contagiou Onésimo, que se converteu. A partir de então, o escravo delinquente passa valer o sentido do seu nome, sendo ele servo útil, tanto para Filemom como para Paulo e acima de tudo, para Deus. O amor de Deus dá sentido à vida, de forma tal, que a pessoa se sente útil.
O relacionamento de Deus para com seus filhos assemelha com essa história. A epístola de Filemom nos trás verdades embutidas. Essa carta é quase uma analogia da obra Redentora de Jesus Cristo, algumas comparações já deduzidas por teólogos reformados estão inseridos nessa carta com aspecto cristocêntrico de reconciliação.
a) É fato que Onésimo fugiu do seu senhor. Nós fugimos do nosso Senhor? Na verdade, todo pecado é uma tentativa de fuga nossa para com Deus. A prática do pecado é a construção de um abismo entre nós e Deus (Is 59:2), foi assim no Éden e o mesmo também acontece hoje.
b) Onésimo foi preso. Bem como ocorreu com Onésimo, o pecado também nos conduz em cadeias. A prisão do pecado é um triste cenário. Quem esteve ou está sob essas cadeias tem a nítida consciência que merece estar lá. Um cenário depressivo, e a sensação inutilidade, impotência são características da prisão.
c) Conclui-se, portanto, que o pecado é a fuga da presença de Deus e esse mesmo pecado nos conduz para cadeias.
Embora Onésimo tenha se convertido ao Evangelho, havia uma situação pendente a Filemom. Paulo toma a decisão de tratar o relacionamento de Onésimo e Filemom. Em Segundo lugar, Paulo nos ensina que tratamos bem o próximo:
2) AJUDANDO COM SEUS PROBLEMAS. (Vs.12)
Como vimos, o olhar de amor é importante, criar sentimentos e empatia pelo próximo é necessário, mas diria eu que não há amor desprovido de sincera e boa ação, onde há um há outro. Paulo cria uma forte amizade com Onésimo. Paulo compara o enviar do escravo como se enviasse o seu coração, que para os hebreus era a sede das afeições mais sensíveis. É admirável o amor que Paulo tinha para com as pessoas, o apego que ele tinha para com o próximo, a caridade desprovida de interesse ou recompensa. Ele amava porque aprendeu amar.
Embora Paulo desejasse ter Onésimo como companheiro (vs.13a), ele sabia que o certo a se fazer era restaurar a comunhão dos dois (Onésimo e Filemom). O apóstolo passa a ser o mediador da negociação. Em defesa do escravo, Paulo desenvolve 4 pedidos e 4 argumentos, a fim de que, Filemom aceite Onésimo de volta como um irmão em Cristo. Vejamos os pedidos e argumentos.
A- (PEDIDO) No (vs.9) Paulo pede para que Filemom receba Onésimo com muito amor. B- (ARGUMENTO) No (vs.10) Paulo alega que Onésimo era o seu mais novo filho espiritual, lembremos que Filemom também era filho espiritual de Paulo. C- (ARGUMENTO) No (vs.11), Paulo diz que Onésimo está mudado para melhor. D- (ARGUMENTO), No (vs.15), Paulo enfatiza a soberania de Deus ao dizer que Onésimo passou por essa fuga para conhecer o Evangelho e se tornar um servo melhor. E- (PEDIDO), No (vs.16) Paulo pede para que Filemom reivindique seu direito de punir Onésimo e abrace a mais difícil lei que existe, a lei do amor cristão. F- (PEDIDO) No (vs.18), o apóstolo Paulo se pré-dispõe e pede para que Filemom o deixe pagar o prejuízo que Onésimo havia feito, esse pagamento não era em dinheiro, pois escravo não possuía nada, o pagamento era uma grande surra, que reduzia o tempo de vida de um escravo, que por vezes não aguentava e falecia . G- (ARGUMENTO) No (vs.19), Paulo argumenta de forma mais veemente ainda, Filemom havia se convertido também pelo Ministério de Paulo, e o apóstolo diz mais ou menos o seguinte: Filemom, você pode até me punir no lugar de Onésimo, só não esqueça que você experimentou o amor de Deus através do meu ministério. H- (PEDIDO) No fim do (vs.20), vem um pedido mais amoroso e sutil, Paulo diz: faz isso por mim, reanima meu coração em Cristo. Novamente o relacionamento de Deus para com seus filhos assemelha com essa história.
1- Paulo se propõe a fazer a importante função de Mediador da negociação. Jesus foi o nosso Mediador (Hb 9:14-15). Ele, Cristo, que nos conduziu de volta para Deus. Uma vez que estávamos na cadeia do pecado; não poderíamos sair de lá. Cristo abraçou nossa causa, e restaurou nosso relacionamento com o Pai.
2- Paulo fez a reconciliação de Onésimo e Filemom através de uma carta. Cristo fez a nossa reconciliação com Deus através do seu sangue (Ef 2:13). Um presente sempre sai de graça para quem recebe. Apenas quem dá o presente paga o preço, o preço da nossa liberdade em Cristo, o presente da salvação saiu de graça para nós, mas custou um alto preço para Jesus.
Dá pra imaginar como Jesus se sente ao ver um filho seu entrando novamente na cela do pecado e colocando em sim mesmo as correntes da escravidão? Deus quer nos ver livres, Foi para a liberdade que Cristo nos libertou (Gl 5:1).

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